segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Ele quer cinemas para o seu filmeco

Por Klauber Cristofen Pires




Na edição do dia 26 de dezembro, o Jornal Nacional lança ao ar uma matéria assim intitulada: "Pesquisa revela que Brasil vive um apagão cultural" . A reportagem declara que uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - um órgão ligado à Presidência da República - descobriu que "de cada 100 municípios, 98 não têm sala pública de cinema, nem centros culturais, e 83 não possuem salas de espetáculos ou teatros que pertençam ao município".

Preste atenção, caro leitor: a tomada não expõe que literalmente faltem cinemas na maioria das cidades; o que declara é que a maioria delas não possui tais facilidades "PÚBLICAS"! A certa altura da reportagem, Márcio Porchmann, presidente da instituição que produziu a informação, declara: "A presença do estado é muito reduzida e precisaria avançar do ponto de vista do país se transformar em uma grande nação onde o conhecimento e a cultura se transformam no principal ativo na sociedade do conhecimento". 


Da forma como foi apresentada a notícia, não é possível afirmar em quantas cidades não existam iniciativas privadas ligadas à cultura (ou será mais adequado usar o termo "entretenimento"?), tais como cinemas, teatros e centros de exposições. Creio mesmo que não sejam poucas, embora certamente representem percentuais um pouco mais favoráveis do que o indicado. Considere-se adicionalmente que, depois da Constituição de 1988, houve um verdadeiro trem da alegria de criação de municípios, de tal forma que hoje há alguns cuja população não ultrapassa a quantidade de moradores em um condomínio. Colocadas todas as cartas na mesa, a relação entre as pessoas que têm um acesso relativamente próximo a um cinema ou teatro em relação às que sofrem a privação destes serviços é bem menos disparatada do que parece.

Oportunamente, esta lacuna apontada nos proporciona a chance de refletirmos um pouco sobre os serviços públicos. Os seus defensores frequentemente afirmam que uma das razões principais para a necessidade de haver tal cobertura por parte do poder público é a de que tais serviços não seriam oferecidos onde a iniciativa privada não vislumbrasse a chance de ter lucro. No caso acima temos a confirmação deste argumento, que não é falso. O que é falso é o que não é dito, isto é, que estes serviços necessariamente devam ser prestados! Em outras palavras, deve haver alguma razão pela qual os empresários ligados a esta área terem decidido fazer poucos investimentos fora dos grandes centros: público pequeno, ou de limitado poder aquisitivo, ou simplesmente desinteressado.


Claro, da mesma forma, devemos colocar nesta conta as dificuldades postas pelo próprio estado: impostos; cotas para exibição de filmes que ninguém quer assistir; entradas francas ou reduzidas para estudantes, idosos e assim por diante. Estas dificuldades hoje parecem ser tantas que podem explicar o fato de que mesmo nas localidades onde há cinemas e teatros estes se vêem frequentemente com dificuldades de lotar seus recintos.

 Opa, não nos esqueçamos também da pirataria: hoje as cópias dos lançamentos - títulos que são filmados de dentro das salas - são vendidas livremente nas esquinas, revelando uma flagrante negligência do estado que deveria lembrar-se disto antes de se meter a empresário do setor.

Ademais, em cidades do interior, há formas de entretenimento e eventos culturais que em geral os habitantes das cidades grandes não têm acesso: banhos de rio ou de mar, cachoeiras, pescarias, cavalgadas, feiras agrícolas ou torneios de peões, piqueniques em fazendas ou churrascos com animadas partidas de futebol são alguns exemplos. Que forma de ação da social-democracia - o sistema de socialismo fundado na igualdade de oportunidades, segundo Hoppe, poderia suprir este problema? Construir uma cachoeira artificial na praça da Sé, no centro de São Paulo? Isto já foi feito no Japão... pela iniciativa privada, claro.

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