quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Uma singela homenagem à ditadura chinesa


Por Isabela Boscov


"Um sociopata cruel, oportunista, sedento de poder e de morte, sem compromisso com ideais. Esse é o Mao Tsé-tung que emerge de uma nova e exaustiva biografia"


Durante décadas, e especialmente na velhice, Mao Tsé-tung se referiu à sua segunda mulher, Kaihui, como o grande amor de sua vida. Eles se conheceram em 1918, e Mao a abandonou em 1927, quando ela tinha 26 anos e três filhos seus. Antes de deixar Kaihui, Mao lhe escreveu uma carta – na qual reclamava de dores nos pés. Kaihui foi executada três anos mais tarde, em represália à violência com que o Exército Vermelho do emergente líder comunista invadira a cidade de Changsha. Mao poderia tê-la posto a salvo, mas a idéia não lhe ocorreu, ou pareceu-lhe fútil. Poemas encontrados na casa da moça muito mais tarde mostram que, até pouco antes de morrer, ela ainda se perguntava se os pés do marido estariam curados. Guiyuan, a jovem por quem Mao trocou Kaihui, deu-lhe seis filhos, e teve de deixar quatro deles para trás, um a um, em suas fugas ou durante a Grande Marcha. Pouco depois do último parto, Guiyuan foi atingida pelos estilhaços de uma bomba. Com ferimentos horríveis, foi desenganada pelo médico, que não achou que ela viveria mais do que duas horas. Mao não foi visitá-la. Estava "cansado", disse. Guiyuan sobreviveu, e até sua morte, em 1984, procurou pelos filhos. Em mais de uma ocasião, pediu ajuda ao todo-poderoso ex-marido, em vão. Mas teve de ouvir várias vezes uma das piadas favoritas dele. Mao dizia às mulheres que não sabia por que elas temiam tanto as dores do parto. "Guiyuan, por exemplo, dá à luz com a mesma facilidade com que uma galinha põe ovos", gracejava ele. O que está na origem de todos esses episódios é a recusa de Mao em colocar o interesse de outra pessoa acima do seu ou em aliviar seu sofrimento, mesmo quando isso estivesse facilmente ao seu alcance. E isso em relação às pessoas queridas. As anônimas ou inimigas não tiveram sequer direito à bênção de sua indiferença. Para elas, o Grande Timoneiro reservou uma crueldade implacável, que o fez terminar a vida, em 1976, com a conta mais macabra da história da humanidade: a de 70 milhões de mortes provocadas por sua responsabilidade direta. É mais do que Adolf Hitler e Josef Stalin conseguiram matar, juntos, a despeito de seus extenuantes esforços. Provar para além de qualquer dúvida que Mao foi o pior dos tiranos do século XX, ou de qualquer século, é a missão de Mao: the Unknown Story (Mao: A História Desconhecida), uma biografia que acaba de ser lançada nos Estados Unidos.


A desconstrução do mito maoísta não é uma novidade. Sobram evidências, por exemplo, de que a Revolução Cultural – a radicalização ideológica dos anos 60, que trouxe uma onda de delações vazias, torturas e execuções – não foi um plano posto em efeito à revelia de Mao, como quer a história oficial. Foi, sim, uma idéia gerida pelo ditador no conforto de sua cama (onde ele às vezes passava semanas a fio), tendo como testa-de-ferro sua mulher, a ex-atriz Jiang Qing. Em 1997, um livro escrito por Li Zhisui, médico de Mao, revelou também a desabonadora intimidade do tirano – que não escovava os dentes, não tratava uma doença venérea que já transmitira a centenas de concubinas porque ela não lhe causava sintomas e vivia obcecado com os movimentos infreqüentes de seu intestino. Seu legado totalitário à China atual, além disso, já cuidou de dispersar qualquer dúvida que os mais ingênuos pudessem ter acerca das benesses do maoísmo. O que há de realmente novo em The Unknown Story é o empenho com que seus autores, o casal Jung Chang e Jon Halliday, demolem partes até então inatacadas do mito – seus pés de barro.


Chinesas com semblante sombrio carregam cartazes de Mao: a burocracia tentacular garantia que nenhum cidadão escapasse ao arrastão do Estado.


Apesar das atrocidades cometidas por seu regime, prevalece a visão de que Mao começou como um idealista – um homem de origem camponesa, solidário com a miséria de sua classe, que enfrentou décadas de agruras e perseguição até proclamar a República Popular da China, em 1949, e então se excedeu no zelo revolucionário. Nada poderia passar mais longe da verdade, afirmam Jung e Halliday. Mao nasceu em 1893, na fértil e aprazível província de Hunan, filho de um agricultor próspero, que logo se tornaria o mais rico de seu vale. O pai de Mao (que ele detestava) tinha orgulho de ter se casado com uma mulher com pés de lótus – os minúsculos pés enfaixados e deformados que distinguiam as damas –, e tentou obstinadamente fazer do filho um acadêmico ou, pelo menos, um camponês que se prezasse. Mao, porém, era um rebelde que conseguia se fazer expulsar de qualquer escola, e também um indolente, que só falava seu dialeto natal e obteve um domínio não mais do que vago da matemática e da economia (como atesta seu projeto de industrialização forçada, o Grande Salto à Frente, que matou 30 milhões de chineses de fome nos anos 50). Quando o pai se cansava de seus abusos e o obrigava a dar duro, Mao pagava a alguma outra pessoa para fazer o serviço em seu lugar. Mesmo quando ele começou a se envolver com o comunismo, o hábito permaneceu. Mao ganhava para recrutar simpatizantes, mas encarregava algum subordinado da tarefa, enquanto ele próprio lia, folgava ou construía castelos de vento. Até o fim de 1925, Mao já trintão, o campesinato não havia figurado em seus discursos, escritos e conversas em mais do que menções passageiras – e neutras.


O que Mao tinha de sobra era a convicção de que nenhuma regra se aplicava a ele. "Não concordo com a visão de que, para serem morais, as ações têm de beneficiar a outrem. O único dever de pessoas como eu é para com elas mesmas", escreveu ele num ensaio, aos 24 anos. As 630 páginas de The Unknown Story são uma compilação de exemplos práticos dessa filosofia. Durante as revoltas camponesas de meados dos anos 20, por exemplo, Mao eletrizou-se com os estragos que o suobiao, uma faca de lâmina dupla e cabo longo, era capaz de operar na anatomia dos senhores de terra. Entre 1931 e 1934, ao estabelecer o primeiro Estado vermelho nas proximidades de Ruijin, Mao fez amplo uso do suobiao – contra opositores, desertores, desafetos ou "latifundiários" que às vezes eram donos de apenas um campo e algumas galinhas. Nesses quatro anos, reduziu a população local em 20%, o que o aproxima da produtividade de seu admirador Pol Pot, do Camboja, que entre 1975 e 1979 matou um quarto da população do país.


Supostos reacionários submetidos à humilhação pública: responsabilidade direta por 70 milhões de mortes.


Stalin, o grande financiador de Mao, preconizava que só é possível instaurar a revolução levando as pessoas a atos que as impeçam de retornar ao seu velho modo de vida. Em suma, tortura, assassinato, pilhagem, delação. Seu pupilo chinês nunca abandonou essa regra de ouro. Como seu mestre, usou-a sempre como ferramenta para concentrar o poder. The Unknown Story relata como muitas das batalhas icônicas da Grande Marcha de 1934-1935 – que serviu como retirada à perseguição do inimigo Partido Nacionalista e como estabelecimento de uma ligação com território soviético – nunca aconteceram, e não passam de fabricação do Partido Comunista. Mas, pior, relata como Mao, durante aqueles 10.000 quilômetros, submeteu suas colunas do Exército Vermelho a desvios sacrificados e carnificinas inúteis com o único objetivo de superar este ou aquele rival no favoritismo de Moscou e acumular mais cargos. Mao tentou inclusive mandar as tropas de outro comandante vermelho para a morte certa, apenas para cimentar uma vitória já ganha. As estatísticas da Grande Marcha explicitam ainda o regime de privilégio que Mao viria a instaurar. Todos os que, como ele, haviam sido carregados em liteiras ao longo do percurso sobreviveram – mesmo os feridos. No restante do contingente, as baixas foram medonhas: somente 4.000 homens, dos 80.000 que ele chegou a comandar, viveram para (não) contar a história.


Esses anos do despontar de Mao narrados em The Unknown Story são a planta sobre a qual o ditador construiu seu império. Tudo o que ele fez a partir da Revolução Comunista de 1949 foi ampliar de forma exponencial a escala de sua crueldade, seu oportunismo e seus desmandos – além de, com a ajuda de seu capacho Chou En-lai, um talento da organização, instaurar a mais bem azeitada máquina de cooptação de que se tem notícia. A burocracia chinesa, em boa parte ainda em funcionamento, garantiu durante todo o reinado de terror de Mao que cada cidadão, desde a mais tenra idade, fosse apanhado pelo arrastão ideológico e operacional do regime. Se há algo que empana a pesquisa exaustiva de Jung Chang e Jon Halliday, porém, é o seu tom de vendeta. Jung, até aqui mais conhecida pelo relato Cisnes Selvagens, foi guarda vermelha, médica descalça, camponesa e metalúrgica antes de conseguir debandar para a Inglaterra, em 1978. Ela claramente tem contas a acertar com seu antigo inferno maoísta, e não há episódio que ela e seu marido narrem ao qual não anexem um comentário sobre o pecado que ele exemplifica. É um recurso desnecessário. Este é um caso em que os fatos realmente falam por si mesmos – e o que eles têm a contar é uma das histórias mais chocantes do século XX.












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