sexta-feira, 16 de outubro de 2009

George Shultz sobre a Guerra Contra as Drogas

Por Mary Anastasia O'Grady



Quando George P. Shultz assumiu o cargo de Secretário de Estado de Ronald Reagan em 1982, sua primeira viagem ao exterior foi para o Canadá. A segunda foi para o México.

"Política externa começa na vizinhança", ele me disse em uma entrevista na capital canadense semana passada. "Eu sempre acreditei nisso, e Ronald Reagan também acreditava, muito firmemente. Ele tinha em mente, de várias formas [o Acordo de Livre Comércio Norte-Americano (NAFTA), de 1993]. Ele dava muita atenção ao México e ao Canadá, assim como eu."

Shultz, agora co-presidente do North American Forum — que reúne pessoas dos negócios e do governo para uma reunião anual — ainda está dando muita atenção aos vizinhos dos Estados Unidos.

Hoje em dia, isso significa levar a sério o problema da violência ligada ao tráfico de drogas na fronteira com o México. "Já chegou ao ponto em que... é preciso se preocupar com o que está acontecendo com o México, e é preciso perceber que o dinheiro que financia tudo isso vem dos Estados Unidos, considerando os lucros obtidos com as drogas ilegais. Não é saudável para nós, e quanto mais para o México, essa violência toda ocorrendo."

A opinião de Shultz tem peso nesta questão, em parte porque ele vem pensando criticamente sobre ela há décadas, e ouvindo os pontos de vista das nações vizinhas. Há muito tempo ele mantém uma posição cética diante da proibição como solução para o abuso de drogas nos Estados Unidos. Essas dúvidas revelaram-se prescientes.

Em 1988, lembra Shultz, ele viajou ao México para a posse do Presidente Carlos Salinas. Depois da cerimônia, tiveram uma conversa particular. "Ele me disse que entendia que era importante que o México fizesse o possível para interromper o fluxo de drogas para os Estados Unidos. Mas ele queria me dizer que o dinheiro que sustentava o tráfico vinha dos Estados Unidos para o México." Shultz diz que mais ou menos na mesma época ouviu algo similar do presidente da Colômbia, Virgilio Barco.

Salinas também advertiu ao secretário que os americanos precisavam perceber que não eram imunes: "Este problema vai transbordar. As quadrilhas de tráfico em algum momento vão chegar nos Estados Unidos."

Nos últimos anos, diz Shultz, "vem surgindo mais e mais a percepção da natureza do problema. Achei interessante que, há três semanas, três ex-presidentes de países latinoamericanos, Presidente Zedillo do México, Presidente Cardoso do Brasil e Presidente Gaviria da Colômbia, fizeram declarações afirmando, essencialmente, que, para avançar na solução deste problema, temos que olhar para todas as suas dimensões, e temos que perceber quais são suas origens."

No entanto é verdade também que esses presidentes se pronunciaram somente após deixarem seus cargos. Perguntei a ele se havia qualquer esperança de vontade política dos que hoje os ocupam. "Há certas indicações de que as pessoas estão percebendo a natureza do problema, e de que estão ganhando mais disposição para lidar com ele."

Mas, diz ele, ainda não criamos o "espaço político" necessário para levantar a questão em público. "No momento, se você estiver na política, você não pode discutir o problema. É uma questão perniciosa. O resultado é que temos um problema gigantesco que está arruinando o México... e temos muitos problemas aqui, e nenhum debate sobre eles."

Shultz é um firme proponente da educação como meio de reduzir a demanda. "Se queremos falar dessa questão a sério, precisamos começar com uma gigantesca campanha para persuadir as pessoas de que as drogas lhes fazem mal. E é preciso baseá-la em fatos sólidos. Não podemos tentar enganar as pessoas."

Isso, porém, tem sido difícil, por causa do tabu em torno do assunto. Shultz recorda o que houve logo após ele deixar o governo, quando veio à tona sua opinião sobre a ineficácia da proibição, depois de um discurso para um grupo de ex-alunos de Stanford.

Naquela época, assim como agora, ele acreditava que precisamos ver o problema de uma perspectiva econômica, e entender o que acontece quando há alta demanda por uma substância proibida. Quando seu comentário chegou à imprensa, Shultz conta que foi "inundado com cartas. Noventa e oito por cento delas concordavam comigo e mais da metade das pessoas disse: 'Fico feliz por você tê-lo dito, mas eu não me atreveria a dizê-lo.' O comentário mais comovente veio de um [ex-membro da Casa de Representantes] que escreveu e disse: 'Fiquei feliz por ver a sua declaração. Eu disse o mesmo há alguns anos, e é por isso que não estou mais na Casa!'"

Perguntei a Shultz se ele acha que talvez uma abordagem mais razoável partisse dos estados. Ele diz que "as pessoas podem se expressar um pouco melhor no nível estadual." E, quanto à liberalização de algumas leis estaduais sobre posse de drogas: "Vejo esses desdobramentos como uma clara afirmação, pelo povo, de que o atual sistema não está funcionando muito bem, e de que eles querem modificá-lo."

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