segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Do Kotscho à Chaui

Por Diogo Mainardi


Ricardo Kotscho foi assessor de imprensa de Lula por dois anos, no primeiro mandato. Agora ele tem um blog. Eu sei, é triste: do Palácio do Planalto ao iG. Mas é só o que lhe resta. Na última semana, Ricardo Kotscho deu o tom da propaganda patrioteira de seu partido. De acordo com ele, Lula derrotou Obama, debelou o H1N1, descobriu petróleo, garantiu a democracia em Honduras e domou a economia mundial. Nós, por outro lado, “os célebres 6% que reprovam o governo Lula”, somos apenas uma “urubuzada” agourenta que pretende minar a alegria dos brasileiros. O lulismo já tem seu Plínio Salgado: é Ricardo Kotscho.

Em Mito Fundador e Sociedade Autoritária, Marilena Chaui fez um apanhado de nosso imaginário nacionalista. O ensaio foi publicado no ano 2000. Quem o editou? Marco Aurélio Garcia, atual coordenador do programa de Dilma Rousseff. A meta de Marilena Chaui era contrastar a propaganda patrioteira de Fernando Henrique Cardoso, na festa dos 500 anos de Descobrimento do Brasil. De “semióforo” em “semióforo” - sim, Marilena Chaui interpreta semióforos -, ela argumentou que nosso chauvinismo “verde-amarelista” sempre foi usado pela classe dominante para manter o poder, esmagando “aqueles célebres 6%” de impatriotas que insistiam estupidamente em ignorar a grandeza do governante de turno.

De Pero Vaz de Caminha a Amaral Netto, passando pelo fascismo getulista e pelo regime militar, Marilena Chaui indicou algumas das patifarias nacionalistas marteladas no decorrer dos séculos. A primeira delas foi perfeitamente resumida por Afonso Celso, mais de 100 anos atrás: nossa riqueza natural é uma dádiva de Deus, e, se Deus “aquinhoou o Brasil de modo especialmente magnânimo, é porque lhe reserva alevantados destinos”. Lula recorreu à mesma impostura determinista quando estatizou o pré-sal, dizendo tratar-se de “uma dádiva de Deus e um passaporte para nosso futuro”. Marilena Chaui analisou também a imagem alegre e fraternal dos brasileiros, que a “cultura senhorial” disseminou a fim de domesticá-los. Mas foi nessa imagem alegre e fraternal que se baseou a mitografia petista, segundo a qual Lula condensaria as melhores características dos brasileiros - Lula, o Filho do Brasil.

Marilena Chaui fazia parte da “urubuzada” agourenta. Depois que Lula foi eleito, ela deu uma amostra de seu rigor intelectual, tornando-se imediatamente “verde-amarelista”, alinhada à fanfarronice do Brasil Grande. Plínio Salgado - o Ricardo Kotscho integralista - inaugurou o “verde-amarelismo”. Alguns anos mais tarde, seu movimento totalitário teve uma segunda etapa. Nome? “Revolução da Anta”. Os célebres 6% que reprovam o governo Lula acreditam estar em plena “Revolução da Anta”.

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