quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A Argentina de Kirchner ataca a imprensa

Por Mary Anastasia O'Grady



 Uma das formas de um presidente subir em popularidade em uma economia em crise é lutando pelo controle do banco central e começando a imprimir muitos pesos. Não há nada como financiamento barato para restaurar o entusiasmo do mercado por comprar todo tipo de coisa — de ações a casas —a a preços de queima de estoque.

 A grande reflação vai fazer as pessoas se sentirem ricas de novo. Uma moeda fraca vai ser também uma benção a curto prazo para os exportadores, cujos lucros então poderão ser tributados a taxas ainda maiores. Quem reclamar será denunciado por sua ganância.

É claro que essa máquina de movimento perpétuo vai eventualmente enguiçar, e, quando isso acontecer, um governo com esperança de sobreviver sentirá a necessidade de silenciar seus críticos. Pergunte aos argentinos, por exemplo, que estão vivendo tudo isso em tempo real.

Depois de mais de cinco anos de pesada intervenção do governo na economia, a Argentina está de novo escorregando para a recessão. Uma taxa de inflação de dois dígitos está se dirigindo para cima, e o governo está ficando sem dinheiro. Em resposta, a Presidente Cristina Kirchner está caindo em cima da imprensa livre. Os argentinos se perguntam se sua democracia vai sobreviver. É importante lembrar a história de como a Argentina chegou nesse ponto. A economia estava prostrada epois do colapso da "convertibilidade" de 2001-2002, o esquema monetário que equiparava o peso ao dólar. Uma nação desmoralizada procurava um redentor.

Acreditou tê-lo encontrado em Néstor Kirchner. Ele se tornou presidente em 2003 e pôs-se a restaurar o modelo de economia gerenciada pelo estado de Juan Peron; o mercado, argumentava, havia falhado. Kirchner assumiu o controle do banco central. Demonizou o setor privado e os investidores. Usando controles de preços, subsídios e regulamentação, ele se tornou um Robin Hood para as massas. O legislativo concedeu-lhe poderes extraordinários.

A economia se recuperou, como seria o esperado após uma brusca contração, e em 2007 sua esposa foi eleita presidente, com 45% dos votos.

Agora os ilusionistas estão perdendo o jeito. Não só a economia está azedando, como, de acordo com as pesquisas, a nação está perdendo a paciência com o que muitos consideram os abusos de poder do "primeiro casal".

 Quatro exemplos servem para demonstrá-lo: primeiro, quando Cristina Kirchner atacou o setor agrícola no ano passado, por ter resistido ao seu plano de impor altas taxas de exportação sobre suas colheitas, a nação se reuniu na defesa dos agricultores, para sua surpresa. Segundo, sua decisão de confiscar contas de aposentadoria privadas foi ruidosamente denunciada como uma violação do estado de direito. Terceiro, há uma crença generalizada de que seu governo esteja usando o serviço de inteligência nacional para colher informações sobre os "inimigos" da presidente. Quarto, a maioria esmagadora dos argentinos se ressente dos privilégios e do estilo de vida exuberante da família da presidente, que contrasta com a queda acentuada nos padrões de vida nacionais.

Essa insatisfação popular apareceu nas pesquisas nas eleições intercalares de junho, quando a ala de Kirchner no Partido Peronista perdeu feio. Seu marido nem sequer conseguiu vencer em sua candidatura a uma cadeira na Câmara representando a província de Buenos Aires, supostamente um baluarte do casal.


Kirchner e seu marido decidiram que perderam por causa da má cobertura da imprensa. Estão particularmente desapontados com a empresa Clarin, que, embora os tenha apoiado antes, agora é uma crítica declarada. Em comentários públicos, o Sr. Kirchner frequentemente insinua que o governo está analisando a empresa para verificar se esta não precisa de cortes. Em setembro, as autoridades fiscais fizeram uma batida nos escritórios de Buenos Aires do jornal diário da companhia. As autoridades depois publicaram um pedido de desculpas pela incursão, mas o jornal sustenta que foi um ato de intimidação. No entanto, o problema da má imprensa para os Kirchner vai muito além da Clarin. Conforme o modelo econômico antimercado começa a derrapar, a nação se volta contra seus arquitetos, e uma imprensa livre não ficará em silêncio. É por isso que a presidente forçou ao legislativo a aprovação de uma lei de mídia, há duas semanas, criando uma nova junta reguladora "audiovisual", controlada pelo executivo.


A lei também dá ao executivo controle sobre o licenciamento do espectro de rádio e reserva pelo menos dois terços deste para emissoras estatais e não governamentais aprovadas pelo executivo. Existe a preocupação de que Kirchner esteja agora se preparando para ir atrás do maior fornecedor doméstico de papel de jornal, e que comece a usar o licenciamento de importações para controlar o acesso a produtos estrangeiros.

 Hugo Chávez se tornou um ditador na Venezuela sob a guisa da democracia, e também ele encerrou a livre imprensa. Os argentinos estão preocupados.

Na semana passada, no jornal La Nación, o filósofo e escritor Santiago Kovadloff resumiu o sentimento da oposição sobre a forma como o governo vem usando "a lei" para consolidar seu poder: "A lei se tornou uma ferramenta para a corrupção", escreveu. "O executivo a colocou a seu serviço, e a manipula habilmente." E como fica a sociedade? "A insegurança não é mais uma ameaça. Já estamos na selva."

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